Thursday, 28 May 2020

De Morte Philosophiæ

Como tudo que existe, a Filosofia já teve seu momento de glória. Houve Filósofos que se preocupavam realmente em respeitar o sentido etimológico da palavra, isto é, que se importavam realmente em amar a sabedoria e a busca da verdade. Uma educação filosófica verdadeira e que acima de tudo respeite a inteligência e a capacidade de compreensão dos alunos raramente se pode encontrar nos tempos atuais, quando é notório que a educação oficial em muitos aspectos dificulta ou não permite o ensino honesto e a independência racional de cada um.

Quando estive, há algum tempo atrás, no campus da Betânia da UVA, especificamente na área do curso de Filosofia, tive o imenso prazer de me reencontrar com velhos colegas e professores do curso que freqüentei não como aluno da instituição, mas como humilde interessado em aprender discutir sobre problemas filosóficos. Numa conversa com um professor do curso de Filosofia – que aqui designarei como “professor Bernstein”, mero nome escolhido arbitrariamente por mim, pois não quero revelar sua identidade-, expus-lhe minha concepção segundo a qual a atividade filosófica e seu produto, o conhecimento, são destinados exclusivamente aos ἀριστοι, os melhores-entendido aqui como aqueles que respeitam a verdade e o saber e que têm o interesse genuíno em desenvolver o intelecto e a sensibilidade, qualidades estas que são raras num mundo onde a maioria das pessoas valoriza a mentira, a futilidade e a estupidez. A Filosofia, disse-lhe, é aristocrática e elitista por natureza, não num sentido marxista e infantil de que seria um clube fechado e monopolizado por supostos “burgueses” maus, mas sim porque é reservada e cultivada por pessoas que têm interesse primordial em educar e instruir o espírito e a inteligência, pessoas estas que, em geral, são a minoria interessada e capaz de desenvolver uma autentica cultura. O professor Bernstein, não compreendendo o sentido exato das minhas palavras, encaminhou a discussão para a interpretação marxista da realidade e disse-me que a Filosofia não pode ficar restrita à chamada elite – como se esta não mais preferisse Medicina ou Engenharia Aeroespacial, – mas deve estar voltada para o proletariado.

Ao ouvir tais palavras, fiquei totalmente aterrorizado, pois sei que não só no curso de Filosofia da UVA, mas também nos cursos de Filosofia de grande parte das universidades brasileiras, essa visão errônea e politiqueira é dominante. A visão marxista expressa pela opinião do professor Bernstein procura transformar a Filosofia em uma “filocracia” operária, ou seja, num louvor ao poder dos trabalhadores de fábricas, dos operários. Tal concepção busca transformar a Filosofia em filosofismo e converter aquilo que antes era um instrumento do desenvolvimento da razão e da sensibilidade em mero meio de propaganda político-ideológica de uma classe cujo resultado será unicamente paralisar e destruir a capacidade racional do homem, rebaixando o nível da produção intelectual da nação, como diria o filósofo Olavo de Carvalho. É a destruição completa da Filosofia. Destruição esta que é ensinada por Karl Marx na tese XI de suas Teses contra Feuerbach, na qual diz: ”Os filósofos se ateram somente em interpretar o mundo, mas o que importa é transformá-lo”. Afirmando isso, Marx exige a passagem da Filosofia contemplativa, discursiva e baseada na razão, para uma “filosofia” baseada em paixões, irracionalismos, ilogismos e na ação política que possibilite a ascensão de uma classe e partido político, neste caso não só o Partido Comunista, como também demais organizações de esquerda e revolucionárias legais ou clandestinas. Ou seja, Marx não aconselha que estudemos Filosofia para resolver uma questão ou dúvida religiosa, existencial, moral, metafísica etc., que realmente nos interesse ou por simples gosto de conhecer, mas para ser um soldado sempre disposto a lutar e morrer em nome da tal revolução comunista. É a passagem do ser pensante ao não ser incapaz de pensar, instrumento barato e manipulável.

Ainda segundo o professor Bernstein, a Filosofia tem de ser levada ao proletariado. Mas o correto não seria que as próprias pessoas deixassem de se interessar por assuntos ocos e prosaicos e voltassem sua atenção para a Filosofia? A Filosofia não deve ser levada a ninguém, porque ela não é uma religião de salvação, nem os filósofos são missionários. A Filosofia tem de ser valorizada e amada por pessoas que verdadeiramente se interessam pelos problemas e discussões levantadas por ela. Jamais deve ser imposta. Ela é posse exclusiva de pessoas que fazem por merecê-la. E tais pessoas podem encontrar-se em qualquer classe social.

Para o pensamento esquerdista de alguns professores da UVA, o proletariado é uma imensa massa envolta em miséria e opressão e que, por causa disso, têm o direito e a obrigação de destruir a sociedade e usurpar o poder político, criando assim uma moral de destruição sanguinária na qual o ato mais desprezível é justificado e considerado como virtude caso atenda aos interesses da revolução (vide Catecismo do Revolucionário de Sergei Netcháev). Consequentemente, eu e você, leitor, teremos de pagar com a vida, porque, segundo eles, somos “opressores do proletariado”. Toda a moral marxista não passa de argumenta ad lazarum e pluria interrogationa.

Some-se a esse quadro negro uma maioria esmagadora de estudantes alheados do que seja Filosofia, que criaram o hábito de ler resumos, e não livros (livros de autores clássicos da Filosofia, e não de Marilenas Chauis), que mal sabem escrever – fato este assumido por um próprio professor do curso de Filosofia a mim-, que passaram no vestibular não porque acertaram grande quantidade de questões conscientemente (mérito próprio), mas por que não zeraram a prova (o que é possível graças à baixa concorrência que possibilita ao vestibulando acertar 20 questões de 60 e já ter sua vaga garantida) e que estão mais preocupados em terminar o curso o mais rápido possível com o intuito de obter o tão amado diploma e mostrá-lo ao prefeito de sua cidade para que lhe consiga uma vaga em alguma escola pública. Com base nisso, como se pode afirmar que o ensino, a aprendizagem e a produção filosófica no Brasil realmente existem e funcionam?

Penso eu que, enquanto tal pensamento reducionista e ingênuo continuar a reinar nas instituições de ensino, e estas estiverem ocupadas por estudantes mais preocupados em ler livros de auto-ajuda e os de Paulo Coelho (que, segundo ele próprio, é o “intelectual mais importante do Brasil”) do que estudar o que é importante, não haverá condição alguma de se ensinar e de se aprender realmente Filosofia, nem de formar pessoas capazes de produzir conhecimento com contribuições originais, e não simplesmente repeti-lo, como acontece hoje. A Filosofia está sendo destruída, e, se nada for feito, a única coisa que poderemos dizer será: – Requiescate in pace, philosophia.

Texto originalmente escrito por volta de abril de 2010 AD.

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