Como tudo que existe, a Filosofia já teve
seu momento de glória. Houve Filósofos que se preocupavam realmente em
respeitar o sentido etimológico da palavra, isto é, que se importavam
realmente em amar a sabedoria e a busca da verdade. Uma educação
filosófica verdadeira e que acima de tudo respeite a inteligência e a
capacidade de compreensão dos alunos raramente se pode encontrar nos
tempos atuais, quando é notório que a educação oficial em muitos
aspectos dificulta ou não permite o ensino honesto e a independência
racional de cada um.
Quando estive, há algum tempo atrás, no
campus da Betânia da UVA, especificamente na área do curso de Filosofia,
tive o imenso prazer de me reencontrar com velhos colegas e professores
do curso que freqüentei não como aluno da instituição, mas como humilde
interessado em aprender discutir sobre problemas filosóficos. Numa
conversa com um professor do curso de Filosofia – que aqui designarei
como “professor Bernstein”, mero nome escolhido arbitrariamente por mim,
pois não quero revelar sua identidade-, expus-lhe minha concepção
segundo a qual a atividade filosófica e seu produto, o conhecimento, são
destinados exclusivamente aos ἀριστοι, os
melhores-entendido aqui como aqueles que respeitam a verdade e o saber e
que têm o interesse genuíno em desenvolver o intelecto e a
sensibilidade, qualidades estas que são raras num mundo onde a maioria
das pessoas valoriza a mentira, a futilidade e a estupidez. A Filosofia,
disse-lhe, é aristocrática e elitista por natureza, não num sentido
marxista e infantil de que seria um clube fechado e monopolizado por
supostos “burgueses” maus, mas sim porque é reservada e cultivada por
pessoas que têm interesse primordial em educar e instruir o espírito e a
inteligência, pessoas estas que, em geral, são a minoria interessada e
capaz de desenvolver uma autentica cultura. O professor Bernstein, não
compreendendo o sentido exato das minhas palavras, encaminhou a
discussão para a interpretação marxista da realidade e disse-me que a
Filosofia não pode ficar restrita à chamada elite – como se esta não
mais preferisse Medicina ou Engenharia Aeroespacial, – mas deve estar
voltada para o proletariado.
Ao ouvir tais palavras, fiquei totalmente
aterrorizado, pois sei que não só no curso de Filosofia da UVA, mas
também nos cursos de Filosofia de grande parte das universidades
brasileiras, essa visão errônea e politiqueira é dominante. A visão
marxista expressa pela opinião do professor Bernstein procura
transformar a Filosofia em uma “filocracia” operária, ou seja, num
louvor ao poder dos trabalhadores de fábricas, dos operários. Tal
concepção busca transformar a Filosofia em filosofismo e converter
aquilo que antes era um instrumento do desenvolvimento da razão e da
sensibilidade em mero meio de propaganda político-ideológica de uma
classe cujo resultado será unicamente paralisar e destruir a capacidade
racional do homem, rebaixando o nível da produção intelectual da nação,
como diria o filósofo Olavo de Carvalho. É a destruição completa da
Filosofia. Destruição esta que é ensinada por Karl Marx na tese XI de
suas Teses contra Feuerbach, na qual diz: ”Os filósofos se
ateram somente em interpretar o mundo, mas o que importa é
transformá-lo”. Afirmando isso, Marx exige a passagem da Filosofia
contemplativa, discursiva e baseada na razão, para uma “filosofia”
baseada em paixões, irracionalismos, ilogismos e na ação política que
possibilite a ascensão de uma classe e partido político, neste caso não
só o Partido Comunista, como também demais organizações de esquerda e
revolucionárias legais ou clandestinas. Ou seja, Marx não aconselha que
estudemos Filosofia para resolver uma questão ou dúvida religiosa,
existencial, moral, metafísica etc., que realmente nos interesse ou por
simples gosto de conhecer, mas para ser um soldado sempre disposto a
lutar e morrer em nome da tal revolução comunista. É a passagem do ser
pensante ao não ser incapaz de pensar, instrumento barato e manipulável.
Ainda segundo o professor Bernstein, a
Filosofia tem de ser levada ao proletariado. Mas o correto não seria que
as próprias pessoas deixassem de se interessar por assuntos ocos e
prosaicos e voltassem sua atenção para a Filosofia? A Filosofia não deve
ser levada a ninguém, porque ela não é uma religião de salvação, nem os
filósofos são missionários. A Filosofia tem de ser valorizada e amada
por pessoas que verdadeiramente se interessam pelos problemas e
discussões levantadas por ela. Jamais deve ser imposta. Ela é posse
exclusiva de pessoas que fazem por merecê-la. E tais pessoas podem
encontrar-se em qualquer classe social.
Para o pensamento esquerdista de alguns
professores da UVA, o proletariado é uma imensa massa envolta em miséria
e opressão e que, por causa disso, têm o direito e a obrigação de
destruir a sociedade e usurpar o poder político, criando assim uma moral
de destruição sanguinária na qual o ato mais desprezível é justificado e
considerado como virtude caso atenda aos interesses da revolução (vide
Catecismo do Revolucionário de Sergei Netcháev). Consequentemente, eu e
você, leitor, teremos de pagar com a vida, porque, segundo eles, somos
“opressores do proletariado”. Toda a moral marxista não passa de argumenta ad lazarum e pluria interrogationa.
Some-se a esse quadro negro uma maioria
esmagadora de estudantes alheados do que seja Filosofia, que criaram o
hábito de ler resumos, e não livros (livros de autores clássicos da
Filosofia, e não de Marilenas Chauis), que mal sabem escrever – fato
este assumido por um próprio professor do curso de Filosofia a mim-, que
passaram no vestibular não porque acertaram grande quantidade de
questões conscientemente (mérito próprio), mas por que não zeraram a
prova (o que é possível graças à baixa concorrência que possibilita ao
vestibulando acertar 20 questões de 60 e já ter sua vaga garantida) e
que estão mais preocupados em terminar o curso o mais rápido possível
com o intuito de obter o tão amado diploma e mostrá-lo ao prefeito de
sua cidade para que lhe consiga uma vaga em alguma escola pública. Com
base nisso, como se pode afirmar que o ensino, a aprendizagem e a
produção filosófica no Brasil realmente existem e funcionam?
Penso eu que, enquanto tal pensamento
reducionista e ingênuo continuar a reinar nas instituições de ensino, e
estas estiverem ocupadas por estudantes mais preocupados em ler livros
de auto-ajuda e os de Paulo Coelho (que, segundo ele próprio, é o
“intelectual mais importante do Brasil”) do que estudar o que é
importante, não haverá condição alguma de se ensinar e de se aprender
realmente Filosofia, nem de formar pessoas capazes de produzir
conhecimento com contribuições originais, e não simplesmente repeti-lo,
como acontece hoje. A Filosofia está sendo destruída, e, se nada for
feito, a única coisa que poderemos dizer será: – Requiescate in pace, philosophia.
Texto originalmente escrito por volta de abril de 2010 AD.
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