"-E porventura não há meios de morrer sem dor?
-Imagine - parou ele diante de mim -, imagine uma pedra do tamanho de uma casa grande; ela está suspensa e você debaixo dela; se lhe cair em cima, na cabeça, sentirá dor?
-Uma pedra do tamanho de uma casa? Claro que dá medo.
-Não estou falando do medo; sentirá dor?
-Uma pedra do tamanho de uma montanha, milhoes de puds (medida antiga, correspondente a 16,3 kg. É claro que não há dor nenhuma.
-Mas se você realmente ficar debaixo, e enquanto ela estiver suspensa, vai ter muito medo de sentir dor. O primeiro cientista, o primeiro doutor, Todos sentirão medo. Cada um saberá que não sentirá dor e cada um terá muito medo de sentir dor.
- Bem, e a segunda causa, a grande?
- É o outro mundo.
- Ou seja, o castigo?
- Isso é indiferente. O outro mundo; só o outro mundo.
- Por acaso não há ateus que não acreditam absolutamente no outro mundo?
Tornou a calar-se.
-Você não estará julgando por si?
-Ninguém pode julgar senão por si mesmo - pronunciou ele enrubescendo - Haverá toda a liberdade quando for indiferente viver ou não viver. Eis o objetivo de tudo."
Trecho do romance Os Demônios de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski:
(Diálogo entre Kiríllov e o amigo de Stiepan Trofímovitch)
No comments:
Post a Comment