Quando participei de um seminário que discutia sobre os desafios da gestão pública no século XXI,
um dos palestrantes declarou, ao discursar sobre ética, que a
administração pública deveria refletir os valores morais da população.
De início, discordei de tal afirmação decididamente, pois acreditava que
os líderes públicos seriam pessoas escolhidas dentre as demais por
serem portadoras de determinadas características e de valores morais
superiores ao usual, obtendo em troca disso reconhecimento e admiração
da sociedade. Dentro dessa lógica, as pessoas escolheriam seus líderes
não por que eles refletem o que elas pensam, mas sim por que teriam
muitas coisas boas a aprender com eles. Os seres humanos não adoram a
Deus por que Ele reflete o que eles são, mas sim por que Deus está
infinitos graus acima em termos de sabedoria, amor, bondade etc do que
qualquer uma de suas criaturas. Procurar sempre o que é melhor e
superior deveria ser a práctica mais corriqueira para um desenvolvimento
geral positivo do indivíduo.
Entretanto,
com o passar do tempo, tendi a concordar com a afirmação do
palestrante. Se temos uma administração pública ineficiente e corrupta e
se nossos líderes são a encarnação mais torpe do anti-herói, isso tudo
nada mais é que um reflexo do que é o povo que os elegeu. A democracia,
ao colocar toda a responsabilidade e poder nas mãos do sine nomine vulgus, cria a ilusão de que o demos
(povo) é imaculado, puro, casto e totalmente isento de erros. O povo
seria a materialização do Sumo Bem, e todas suas ações seriam
justificadas com base nisso. Isso é uma enganação que ganhou força
desde, pelo menos, a época da Revolução Francesa, que contestou e
desprezou a instituição da Hierarquia e da Autoridade, seja ela a de
Deus ou a da Ordem Aristocrática. O próprio lema revolucionário –
Liberdade, Igualdade e Fraternidade – é contraditório per se,
pois a liberdade necessita da desigualdade para se concretizar na vida
práctica, livre das normas impositivas e estáticas da igualdade - a
qual só existiria através do uso da violência, da imposição, visto que
ela é antinatural pelo fato de os homens serem desiguais em
essência, aptidões e intelecto. E sem liberdade não poderia haver, por
fim, uma relação fraterna entre os homens. Em sua encíclica Divini Redemptoris,
Papa Pius XI afirma que as propostas desse liberalismo revolucionário
francês abriram as portas para demandas cada vez mais radicais de um
inimigo mais poderoso: o comunismo.
O
poder ilimitado do povo numa democracia parece justificar-se também em
dois erros lógicos de argumentação, a saber, as falácias ad populum e ad numeram. Elas dizem, grosso modo,
que uma afirmação é tão mais verdadeira quanto mais pessoas afirmam que
ela o é. O conceito de verdade estaria condicionado à autoridade da
quantidade. Se o povo diz que um certo governante,
apesar de ser corrupto e parlapatão, é o mais indicado a administrar
uma nação, então teríamos todos de aceitá-lo. Quem, pois, teria a
bravura necessária para, neste caso, fazer face á opinião massificada e
contestá-la, sob a condição de ser xingado porventura de fascista e de ser condenado ao isolamento?
O
povo não se importa com a ética dos nossos administradores e líderes
públicos, porque eles próprios não têm um comportamento moral exemplar a
oferecer. São tão corruptos e imersos no vício quanto seus dirigentes.
Os mais famigerados escândalos de corrupção como o mensalão, a máfia dos
sanguessugas, a fabricação de dossiês, a criação do Foro de São Paulo
que congrega diversos partidos comunistas da América Latina e cujas atas
documentam relações explícitas de apoio do PT à narcoguerrilha das FARC
não impediram a reeleição de Lula como Presidente da República.
Tampouco as recentes denúncias de quebra de sigilo fiscal de vários
integrantes de um partido de oposição e a demissão da ex-ministra da
Casa Civil por tráfico de influência tiraram pontos percentuais da
candidata governista nas pesquisas de intenção de votos. E o que tais
factos nos revelam? Eles nos revelam que o povo está destituído de
discernimento e de caráter a tal ponto que, embriagado pela propaganda
governista e acorrentado ao assistencialismo lulista, perdeu o
sentimento de indignação e de mal-estar diante dos atos mais abjetos que
seus próprios governantes possam practicar contra a sociedade e a
família. Se Lula, imitando o imperador romano Calígula, quisesse também
nomear seu animal de estimação para algum cargo público, tal ato seria
considerado como absolutamente normal e digno de louvor pela opinião
pública a qual, aliás, Lula se autoproclama representante exclusivo ,
assim como Stalin, Mão Tse Tung e outros grandes dictadores costumavam
se ver.
A
única maneira de reverter tal conjuntura seria destruir o mito
romântico da igualdade e recuperar o respeito ao conhecimento, à
hierarquia social e aos valores morais do Cristianismo, bases da Cultura
Ocidental e fatores valiosos para a edificação de uma civilização no
Brasil. Sem isso feito, o próprio Ocidente se põe em perigo em face do
crescimento maciço do movimento comunista que, radicalizando as
propostas da revolução liberal de 1789 em França, procura pulverizar por
quaisquer meios todo aquele que se oponha à sua tomada do poder
político. Aristóteles afirmou no livro Política que “há
na espécie humana indivíduos tão inferiores a outros como o corpo o é
em relação à alma ou a fera ao homem; são os homens nos quais o emprego
da força física é o melhor que deles se obtém. Partindo dos nossos
princípios, tais indivíduos são destinados por natureza à escravidão,
porque, para eles, nada é mais fácil de obedecer”. Temos de admitir, por
fim, que Aristóteles fez uma análise correta da condição humana e que,
ao invés de encararmos o mundo como de facto ele é, preferimos viver num
sonho cândido que se mostrará em seguida um pesadelo tão logo as
cortinas do palco se cerrem, e as trevas se dissipem.
Escrito originalmente por volta do mês de outubro do ano de 2010 AD.