Friday, 11 September 2020

Diante da Lei - Franz Kafka

Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde.

-É possível - diz o porteiro - mas agora não.

Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:

-Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.

O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta.

Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. Às vezes o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:

-Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.

Durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião.

Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam. Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:

-O que é que você ainda quer saber? pergunta o porteiro. Você é insaciável.

-Todos aspiram à lei - diz o homem. Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?

O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:

-Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.


Franz Kafka (Praga, 3 de julho de 1883 - Klosterneuburg, 3 de junho de 1924) foi um escritor de língua alemã.

 "-E porventura não há meios de morrer sem dor?

-Imagine - parou ele diante de mim -, imagine uma pedra do tamanho de uma casa grande; ela está suspensa e você debaixo dela; se lhe cair em cima, na cabeça, sentirá dor?

-Uma pedra do tamanho de uma casa? Claro que dá medo.

-Não estou falando do medo; sentirá dor?

-Uma pedra do tamanho de uma montanha, milhoes de puds (medida antiga, correspondente a 16,3 kg. É claro que não há dor nenhuma.

-Mas se você realmente ficar debaixo, e enquanto ela estiver suspensa, vai ter muito medo de sentir dor. O primeiro cientista, o primeiro doutor, Todos sentirão medo. Cada um saberá que não sentirá dor e cada um terá muito medo de sentir dor.

- Bem, e a segunda causa, a grande?

- É o outro mundo.

- Ou seja, o castigo?

- Isso é indiferente. O outro mundo; só o outro mundo.

- Por acaso não há ateus que não acreditam absolutamente no outro mundo?

Tornou a calar-se.

-Você não estará julgando por si?

-Ninguém pode julgar senão por si mesmo - pronunciou ele enrubescendo - Haverá toda a liberdade quando for indiferente viver ou não viver. Eis o objetivo de tudo."


Trecho do romance Os Demônios de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski:


(Diálogo entre Kiríllov e o amigo de Stiepan Trofímovitch)

Sunday, 6 September 2020

" "Ὡς αἰεὶ τὸν ὁμοῖον ἄγει θεὸς ὡς τὸν ὁμοῖον. "

Ὀδύσσεια, XVII

"Sempre os deuses fazem cada qual se juntar a seu igual".

Saturday, 29 August 2020

A Órfã na Costura




Ela lhe ensinou a levantar suas mãos puras

e inocentes para o céu, a dirigir seus primeiros

olhares a seu Criador.

                     Flechier



Minha mãe era bonita,

Era toda a minha dita,

Era todo o meu amor.

Seu cabelo era tão louro,

Que nem uma fita de ouro

Tinha tamanho esplendor.



Suas madeixas lúcidas

Lhe caíam tão compridas,

Que vinham-lhe os pés beijar.

Quando ouvia as minhas queixas,

Em suas áureas madeixas

Ela vinha me embrulhar.



Também quando toda fria

A minha alma estremecia,

Quando ausente estava o sol,

Os seus cabelos compridos,

Como fios aquecidos,

Serviam-me de lençol.



Minha mãe era bonita,

Era toda a minha dita,

Era todo o meu amor.

Seus olhos eram suaves,

Como o gorjeio das aves

Sobre a choça do pastor.



Minha mãe era mui bela,

— Eu me lembro tanto dela,

De tudo quanto era seu!

Tenho em meu peito guardadas

Suas palavras sagradas

Co'os risos que ela me deu.



Os meus passos vacilantes

Foram por largos instantes,

Ensinados pêlos seus.

Os meus lábios mudos, quedos

Abertos pêlos seus dedos,

Pronunciaram-me: — Deus!



Mais tarde — quando acordava

Quando a aurora despontava,

Erguia-me sua mão.

Falando pela voz dela,

Eu repetia singela

Uma formosa oração.



Minha mãe era mui bela,

— Eu me lembro tanto dela,

De tudo quanto era seu l

Minha mãe era bonita,

Era toda a minha dita,

Era tudo e tudo meu.



Este pontos que eu imprimo,

Estas quadrinhas que eu rimo,

Foi ela que me ensinou.

As vozes que eu pronuncio,

Os cantos que eu balbucio,

Foi ela quem mos formou.



Minha mãe'. — diz-me esta vida,

Diz-me também esta lida,

Este retroz, esta lã.

Minha mãe! — diz-me este canto,

Minha mãel — diz-me este pranto,

— Tudo me diz: — minha mãe! —



Minha mãe era mui bela,

— Eu me lembro tanto dela,

De tudo quanto era seu!

Minha mãe era bonita,

Era toda a minha dita,

Era tudo e tudo meu.



Junqueira Freire

Sunday, 9 August 2020

Obras-Primas 1979

 1-Dom Quixote- Cervantes
2-Histórias Extraordinárias- Poe
3-As Ilusões Perdidas- Balzac
4-Memórias Póstumas De Braz Cubas/ Dom Casmurro- Machado de Assis
5-O Falecido Mattia Pascal/ Seis Personagens à Procura de um Autor- Pirandello
6-Odisséia- Homero
7-As Aventuras do Sr. Pickwick- Dickens
8-Romeu e Julieta/Macbeth/Hamlet, Príncipe da Dinamarca/Otelo, O Mouro de Veneza- Shakespeare
9-As Alegres Comadres de Windsor/ Medida Por Medida/ O Sonho de Uma Noite de Verão/ O Mercador de Veneza/ A Megera Domada- Willian Shakespeare
10-Madame Bovary- Flaubert
11-Decamerão-Boccaccio
12-O Vermelho E O Negro- Stendhal
13-Germinal-Émile Zola
14-O Processo- Frank Kafka
15- Crime e Castigo Volume I- Dostoiévski
16- Crime e Castigo Volume II- Dostoiévski
17-A Idade da Razão- Jean Paul Sartre
18- As Três Irmãs/ Contos- Tchekhov
19-O Primo Basílio- Eça de Queirós
20-O Morro dos Ventos Uivantes- Emily Bronte
21-Estado de Sítio/ O Estrangeiro- Albert Camus
22-Os Lusíada- Luís de Camões
23-As Vinhas da Ira Volume I-John Steinbeck
24-As Vinhas da Ira Volume II-John Steinbeck
25-Os Trabalhadores do Mar- Victor Hugo
26-O Leopardo- Lampedusa
27- Almas Mortas- Nikolai Gógol
28- No Caminho de Swann- Marcel Proust
29-A Divina Comédia- Dante Alighieri
30- Tônio Kroeger/ A Morte em Veneza-Thomas Mann
31-Ana Karênina Volume I- Leon Tolstói
32- Ana Karênina Volume II- Leon Tolstói
33-Viagens de Gulliver- Jonathan Swift
34-Os Sertões- Euclides da Cunha
35-Pequenos Burgueses/ Mãe- Máximo Gorki
36-Contos- Voltaire
37- Mulheres Apaixonadas- D.H. Lawrence
38-O Tartufo/ Escola de Mulheres/ O Burguês Fidalgo- Molière
39-1919- John dos Passos
40-Admirável Mundo Novo- Aldous Huxley
41- Um bonde chamado desejo/ A morte do caixeiro viajante- Tennesse Willians
42-Prometeu Acorrentado- Ésquilo/ Édipo Rei- Sófocles/ Medéia- Eurípides
43-Babbitt- Sinclair Lewis
44-O Sol também Se Levanta- Ernest Hemingway
45-Longa Jornada Noite Adentro- Eugene O'Neill
46-A Outra Volta do Parafuso/Lady Barberina-Henry James
47-Moby Dick Volume I- Herman Melville
48-Moby Dick VolumeII- Herman Melville
49-A Religiosa-Dennis Diderol
50-As Relações Perigosas-Choderlos de Laclos
51-Lord Jim- Joseph Conrad
52-Moll Flanders- Daniel Defoe
53- O Retrato do Dorian Gray- Oscar Wilde
54-Ulisses- James Joyce
55-Santuário- William Faulkner