Monday, 18 December 2017

A questão da existência de Deus e o Ateísmo

Antes de tudo, é necessário analisar a própria palavra "existir". Ela vem de existire e significa algo como "estar em". Sendo assim, claramente não é muito adequada. Deus existe apenas dando à palavra "existência" um significado muito mais amplo do que aquele que comporta seu sentido etimológico. No sentido estritamente etimológico da palavra "existir", Deus não existe(ou, talvez, existe e inexiste ao mesmo tempo, se o consideramos respectivamente sob os aspectos imanente ou transcendente). O mais adequado, porém, seria dizer que Deus é. Deus não existe, Deus É. A existência, no sentido etimológico da palavra, implica em condicionamento, pois quem existe "está em" alguma coisa, em algum lugar, em algum tempo, etc. , e portanto depende dessa outra coisa, está submetido a certas condições(espaciais, temporais, etc.). Por isso "Estar em"(=existir) se aplica mais propriamente às criaturas, aos seres condicionados, limitados, como nós. Não obstante, por questão de costume, a partir de agora falarei em "existência de Deus", esperando que os leitores entendam com isso a palavra "existir" não no sentido etimológico e sim com a amplitude necessária já referida.

Disseram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão?
Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu SOU.
[João 8, 57-58)

[Eu sou, e não "eu era", pois Deus não está submetido a nenhuma condição, portanto não está submetido a qualquer tipo de sucessão, da qual a sucessão temporal é apenas uma das possíveis(passado-futuro)]

E disse Deus a Moisés: EU SOU AQUELE QUE É
Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: "EU SOU me enviou a vós".
[Êxodo 3, 14]

[A passagem original, em hebraico, seria mais literalmente traduzida como "O Ser é o Ser"!]

Em segundo lugar, é preciso dizer logo que quando falo Deus, entendo com isso o Ser Absoluto. O Deus da teologia equivale ao Ser Absoluto da metafísica(aliás, todos os conceitos teológicos podem ser transpostos metafisicamente por alguém qualificado). A afirmação teológica "Deus existe" portanto, equivale, metafisicamente, à afirmação "O Ser é". Ora, é um contrasenso negar a existência(entendida a palavra em sentido amplo, inclusive transcendente) do Ser. Pois tudo o que é, é por participação no Ser. Negar o Ser seria negar, por consequência, a própria existência(agora entendida no sentido etimológico), o que resultaria numa absurdidade pura e simples. Nesse sentido, até os ateus acreditam em Deus, embora não sejam suficientemente inteligentes para saber disso. As verdades metafísicas são totalmente irrefutáveis(entendida aqui a palavra metafísica não nos diversos sentidos que a palavra tomou, mas no sentido dado a ela pelos autores tradicionais), o que significa que, diferentemente do que acontece nas teologias das religiões, etc., no campo metafísico não é possível haver discussão, pois mesmo as verdades teóricas são apreendidas por evidência. O que pode haver é uma boa ou má exposição de tais verdades, sem considerar o fato de que as verdades teóricas(que podem ser expostas) não são ainda senão muito incompletas, embora ainda assim os princípios sejam evidentes(mesmo quando expostos teoricamente). E as verdades propriamente espirituais, a fortiori, são apreendidas de forma direta e totalmente independente, de modo que para aquele que toma delas ciência, não há mais nenhuma dúvida, até porque, nesses casos, o que ocorre é uma assimilação integral do objeto pelo sujeito, ou melhor, sujeito e objeto se unificam, e cessam-se as distinções. Ora, "Ser é Conhecer", e o conhecimento integral e absoluto de um objeto só é possível pela identificação do sujeito com ele. É assim também que se pode dizer que "Deus é mais você do que você mesmo" ou que "Deus está mais próximo de você do que você mesmo está", pois você não se conhece totalmente, não é totalmente dono de si, por assim dizer, não está totalmente identificado sequer consigo mesmo; enquanto que Deus, sendo Aquele que É, lhe conhece integralmente, cada "ponto" seu.

Agora, saindo do campo das considerações universais(metafísica no sentido etimológico) e indo para o campo da religião e da teologia, podemos perguntar se é válido, como ocorre no cristianismo, considerar Deus como pessoal. Bom, em primeiro lugar, quem sou eu para pretender julgar a validade de uma Tradição espiritual milenar como o Cristianismo?! Sendo assim, a resposta é claramente sim, é possível considerar Deus tanto como Pessoal como quanto Impessoal, dependendo do ponto de vista(e a prova é que a Tradição Hindu considera Deus sob essas duas perspectivas dependendo da escola em questão, p.e., as escolas dualistas de um lado e o Advaita Vedanta de Shankaracharya de outro). Só é preciso diferenciar aqui "Pessoal" de "Individual", pois considerar Deus como individual é um absurdo sob o ponto de vista de qualquer ortodoxia religiosa. Deus jamais pode ser considerado como um "indivíduo humano" e quando a bíblia diz "Deus falou" no gênese ou atribui a Ele outras características antropomórficas, é somente de forma figurativa, por não dispor de outros meios. Pois é claro que Deus não tem uma boca, ou braços, até porque segundo a doutrina da Igreja Católica, por exemplo, Deus é ato puro, no sentido aristotélico de "ato", sendo assim, é puro espírito. O "Deus falou" bíblico equivale ao "Deus criou" teológico que equivale ao "O Ser Se manifestou" metafísico.

Caberia dizer muito mais aqui, mas seria se alongar demais. Só para finalizar, é bom falar um pouco sobre o interessante fenômeno do ateísmo. Bom, em primeiro lugar seria bom que os próprios ateus definissem melhor isso...começando pelo fato de que a maioria dos que se dizem ateus, são aquilo que eu chamaria impropriamente de "ateu cristão". Sim, pois para cada religião ou tradição espiritual existe uma espécie própria de ateu. É impossível, por exemplo, ser "ateu cristão" e "ateu budista" ao mesmo tempo. Sendo assim, o ateísmo nada mais é, do meu ponto de vista, do que uma grande confusão! O sujeito que se diz ateu, ou ele o é por motivos sentimentais(por ter se decepcionado com alguma religião específica por exemplo), ou por não aceitar a definição de Deus como lhe foi apresentada por uma certa religião ou por um certo representante de alguma religião ou ainda(o que é mais comum) por não aceitar as concepções como lhe são expostas pelo "povo"(os seguidores comuns e superficiais das religiões, que representam 99,9% dos seguidores), etc. É curioso que em nossa época se tenha escrito livros(!!) para combater concepções populares da religião(!!!), ou seja, algum cientista ateu escreve um livro inteiro para combater fantasmas(concepções irreais de Deus e de conceitos religiosos, que só existem na cabeça do povão, como a de achar que Deus é uma espécie de velho barbudo sentado num trono nos céus).Eu falei em "cientista" ateu propositalmente, pois sei o valor que nossa sociedade atual atribui aos cientistas. Sem me opor de forma alguma a tal valorização(embora a considere sim exagerada), gostaria apenas de acrescentar que o fato de uma pessoa conhecer muito sobre determinada área(digamos, biologia molecular ou física quântica) não a autoriza de forma alguma a se intrometer em áreas sobre as quais ela nunca tenha estudado e, muitas das vezes, das quais ela não tem o mais elementar conhecimento. Trocando em miúdos, o fato de um sujeito saber muito sobre as interações bioquímicas celulares ou coisa que o valha, não significa que em outro campo qualquer(religião, por exemplo) ele não seja tão desqualificado quanto qualquer outro para falar, e é justamente o que acontece: sujeitos com um diploma na mão e entendendo tanto de religião quanto o vendedor de hambúrgeres que vai ao culto do macedão no fim de semana. Com a diferença de que escrevem livros e são tremendamente respeitados(por terem um diploma de biologia ou física). A verdade é que a  existência massissa de ateus é um fenômeno exclusivamente ocidental moderno e que tem várias causas(inclusive, no caso do cristianismo, devido à cada vez mais profunda decadência intelectual dentro  da Igreja  desde o fim da Idade Média e o excessivo foco no "sentimentalismo", esquecendo tudo o mais). Eu não sou católico(praticante) e por isso posso falar imparcialmente. Enquanto a Igreja cai aos pedaços, os ateus militantes desfilam "abalando" as frágeis crenças do povo e dos pseudointelectuais(únicos que são capazes de ser atingidos por esse tipo de militância). Enquanto os padres não sabem nem o "beabá" do cristianismo e, quando aprendem alguma coisa, é Focault e Sartre nos seminários(!!!!!) ao invés da Summa Theologica de São Tomás, Aristóteles e Platão, enquanto isso acontece, milhares de crentes são convertidos ao ateísmo todos os dias depois de ler um livreco de Richard Dawkins ou Christopher Hitchens sobre religião, livreco que qualquer freizinho católico medieval refutaria em dois tempos. Além do mais,  minha pouca experiência revela que os pouquíssimos bons católicos de hoje vivem envergonhados ou se convertem à Igreja Ortodoxa ou mesmo, em casos extremos, a outra Tradição(por exemplo, o Islam).  O fato é que o perenialismo, por exemplo, tem sido mais eficaz que a Igreja em restaurar nas pessoas uma mentalidade tradicional! O problema é que o perenialismo é algo que jamais atingirá o grande público, sequer o público culto - é algo para uma elite minoritária; pegue um livro como "O Simbolismo da Cruz" de Guénon, com todas as suas analogias geométricas e até com o cálculo diferencial e integral, que além disso requer todo um background para poder começar a ser compreendido: quantos hoje serão capazes de ler um tal livro? Se eu dissesse um em um milhão, já estaria sendo otimista demais. Por último: alguém conseguiria imaginar um confronto entre um Richard Dawkins e um metafísico como o muçulmano René Guénon, por exemplo? Eu também não. E, sinceramente, jamais um autor do nível deste último se rebaixaria a tanto.
 
BONFANTE, Bruno. Acessado em 18/12/2017. Disponível em http://solucoestradicionais.blogspot.com.br/2011/01/questao-da-existencia-de-deus-e-o.html

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