Antes de tudo, é necessário analisar a própria palavra "existir". Ela vem de existire e
significa algo como "estar em". Sendo assim, claramente não é muito
adequada. Deus existe apenas dando à palavra "existência" um significado
muito mais amplo do que aquele que comporta seu sentido etimológico. No
sentido estritamente etimológico da palavra "existir", Deus não
existe(ou, talvez, existe e inexiste ao mesmo tempo, se o consideramos
respectivamente sob os aspectos imanente ou transcendente). O mais
adequado, porém, seria dizer que Deus é. Deus não existe, Deus É. A
existência, no sentido etimológico da palavra, implica em
condicionamento, pois quem existe "está em" alguma coisa, em algum
lugar, em algum tempo, etc. , e portanto depende dessa outra coisa, está
submetido a certas condições(espaciais, temporais, etc.). Por isso
"Estar em"(=existir) se aplica mais propriamente às criaturas, aos seres
condicionados, limitados, como nós. Não obstante, por questão de
costume, a partir de agora falarei em "existência de Deus", esperando
que os leitores entendam com isso a palavra "existir" não no sentido
etimológico e sim com a amplitude necessária já referida.
Disseram-lhe, pois, os judeus: Ainda não tens cinqüenta anos, e viste Abraão?
Disse-lhes Jesus: Em verdade, em verdade vos digo que antes que Abraão existisse, eu SOU.
[João 8, 57-58)
[Eu sou, e não "eu era", pois
Deus não está submetido a nenhuma condição, portanto não está
submetido a qualquer tipo de sucessão, da qual a sucessão temporal é
apenas uma das possíveis(passado-futuro)]
E disse Deus a Moisés: EU SOU AQUELE QUE É.
Disse mais: Assim dirás aos filhos de Israel: "EU SOU me enviou a vós".
[Êxodo 3, 14]
[A passagem original, em hebraico, seria mais literalmente traduzida como "O Ser é o Ser"!]
Em segundo lugar, é preciso
dizer logo que quando falo Deus, entendo com isso o Ser Absoluto. O Deus
da teologia equivale ao Ser Absoluto da metafísica(aliás, todos os
conceitos teológicos podem ser transpostos metafisicamente por alguém
qualificado). A afirmação teológica "Deus existe" portanto, equivale,
metafisicamente, à afirmação "O Ser é". Ora, é um contrasenso negar a
existência(entendida a palavra em sentido amplo, inclusive
transcendente) do Ser. Pois tudo o que é, é por participação no Ser.
Negar o Ser seria negar, por consequência, a própria existência(agora
entendida no sentido etimológico), o que resultaria numa absurdidade
pura e simples. Nesse sentido, até os ateus acreditam em Deus, embora
não sejam suficientemente inteligentes para saber disso. As verdades
metafísicas são totalmente irrefutáveis(entendida aqui a palavra
metafísica não nos diversos sentidos que a palavra tomou, mas no sentido
dado a ela pelos autores tradicionais), o que significa que,
diferentemente do que acontece nas teologias das religiões, etc., no
campo metafísico não é possível haver discussão, pois mesmo as verdades
teóricas são apreendidas por evidência. O que pode haver é uma boa ou má
exposição de tais verdades, sem considerar o fato de que as verdades
teóricas(que podem ser expostas) não são ainda senão muito incompletas,
embora ainda assim os princípios sejam evidentes(mesmo quando expostos
teoricamente). E as verdades propriamente espirituais, a fortiori,
são apreendidas de forma direta e totalmente independente, de modo que
para aquele que toma delas ciência, não há mais nenhuma dúvida, até
porque, nesses casos, o que ocorre é uma assimilação integral do objeto
pelo sujeito, ou melhor, sujeito e objeto se unificam, e cessam-se as
distinções. Ora, "Ser é Conhecer", e o conhecimento integral e absoluto
de um objeto só é possível pela identificação do sujeito com ele. É
assim também que se pode dizer que "Deus é mais você do que você mesmo"
ou que "Deus está mais próximo de você do que você mesmo está", pois
você não se conhece totalmente, não é totalmente dono de si, por assim
dizer, não está totalmente identificado sequer consigo mesmo; enquanto
que Deus, sendo Aquele que É, lhe conhece integralmente, cada "ponto"
seu.
Agora, saindo do campo das
considerações universais(metafísica no sentido etimológico) e indo para o
campo da religião e da teologia, podemos perguntar se é válido, como
ocorre no cristianismo, considerar Deus como pessoal. Bom, em primeiro
lugar, quem sou eu para pretender julgar a validade de uma Tradição
espiritual milenar como o Cristianismo?! Sendo assim, a resposta é
claramente sim, é possível considerar Deus tanto como Pessoal como
quanto Impessoal, dependendo do ponto de vista(e a prova é que a
Tradição Hindu considera Deus sob essas duas perspectivas dependendo da
escola em questão, p.e., as escolas dualistas de um lado e o Advaita
Vedanta de Shankaracharya de outro). Só é preciso diferenciar aqui
"Pessoal" de "Individual", pois considerar Deus como individual é um
absurdo sob o ponto de vista de qualquer ortodoxia religiosa. Deus
jamais pode ser considerado como um "indivíduo humano" e quando a bíblia
diz "Deus falou" no gênese ou atribui a Ele outras características
antropomórficas, é somente de forma figurativa, por não dispor de outros
meios. Pois é claro que Deus não tem uma boca, ou braços, até porque
segundo a doutrina da Igreja Católica, por exemplo, Deus é ato puro, no
sentido aristotélico de "ato", sendo assim, é puro espírito. O "Deus
falou" bíblico equivale ao "Deus criou" teológico que equivale ao "O Ser
Se manifestou" metafísico.
Caberia dizer muito mais aqui,
mas seria se alongar demais. Só para finalizar, é bom falar um pouco
sobre o interessante fenômeno do ateísmo. Bom, em primeiro lugar seria
bom que os próprios ateus definissem melhor isso...começando pelo fato
de que a maioria dos que se dizem ateus, são aquilo que eu chamaria
impropriamente de "ateu cristão". Sim, pois para cada religião ou
tradição espiritual existe uma espécie própria de ateu. É impossível,
por exemplo, ser "ateu cristão" e "ateu budista" ao mesmo tempo. Sendo
assim, o ateísmo nada mais é, do meu ponto de vista, do que uma grande
confusão! O sujeito que se diz ateu, ou ele o é por motivos
sentimentais(por ter se decepcionado com alguma religião específica por
exemplo), ou por não aceitar a definição de Deus como lhe foi
apresentada por uma certa religião ou por um certo representante de
alguma religião ou ainda(o que é mais comum) por não aceitar as
concepções como lhe são expostas pelo "povo"(os seguidores comuns e
superficiais das religiões, que representam 99,9% dos seguidores), etc. É
curioso que em nossa época se tenha escrito livros(!!) para combater
concepções populares da religião(!!!), ou seja, algum cientista ateu
escreve um livro inteiro para combater fantasmas(concepções irreais de
Deus e de conceitos religiosos, que só existem na cabeça do povão, como a
de achar que Deus é uma espécie de velho barbudo sentado num trono nos
céus).Eu falei em "cientista" ateu propositalmente, pois sei o valor que
nossa sociedade atual atribui aos cientistas. Sem me opor de forma
alguma a tal valorização(embora a considere sim exagerada), gostaria
apenas de acrescentar que o fato de uma pessoa conhecer muito sobre
determinada área(digamos, biologia molecular ou física quântica) não a
autoriza de forma alguma a se intrometer em áreas sobre as quais ela
nunca tenha estudado e, muitas das vezes, das quais ela não tem o mais
elementar conhecimento. Trocando em miúdos, o fato de um sujeito saber
muito sobre as interações bioquímicas celulares ou coisa que o valha,
não significa que em outro campo qualquer(religião, por exemplo) ele não
seja tão desqualificado quanto qualquer outro para falar, e é
justamente o que acontece: sujeitos com um diploma na mão e entendendo
tanto de religião quanto o vendedor de hambúrgeres que vai ao culto do
macedão no fim de semana. Com a diferença de que escrevem livros e são
tremendamente respeitados(por terem um diploma de biologia ou física). A
verdade é que a existência massissa de ateus é um fenômeno
exclusivamente ocidental moderno e que tem várias causas(inclusive, no
caso do cristianismo, devido à cada vez mais profunda decadência
intelectual dentro da Igreja desde o fim da Idade Média e o excessivo
foco no "sentimentalismo", esquecendo tudo o mais). Eu não sou
católico(praticante) e por isso posso falar imparcialmente. Enquanto a
Igreja cai aos pedaços, os ateus militantes desfilam "abalando" as
frágeis crenças do povo e dos pseudointelectuais(únicos que são capazes
de ser atingidos por esse tipo de militância). Enquanto os padres não
sabem nem o "beabá" do cristianismo e, quando aprendem alguma coisa, é
Focault e Sartre nos seminários(!!!!!) ao invés da Summa Theologica de
São Tomás, Aristóteles e Platão, enquanto isso acontece, milhares de
crentes são convertidos ao ateísmo todos os dias depois de ler um
livreco de Richard Dawkins ou Christopher Hitchens sobre religião,
livreco que qualquer freizinho católico medieval refutaria em dois
tempos. Além do mais, minha pouca experiência revela que os
pouquíssimos bons católicos de hoje vivem envergonhados ou se convertem à
Igreja Ortodoxa ou mesmo, em casos extremos, a outra Tradição(por
exemplo, o Islam). O fato é que o perenialismo, por exemplo, tem sido
mais eficaz que a Igreja em restaurar nas pessoas uma mentalidade
tradicional! O problema é que o perenialismo é algo que jamais atingirá o
grande público, sequer o público culto - é algo para uma elite
minoritária; pegue um livro como "O Simbolismo da Cruz" de Guénon, com
todas as suas analogias geométricas e até com o cálculo diferencial e
integral, que além disso requer todo um background para poder
começar a ser compreendido: quantos hoje serão capazes de ler um tal
livro? Se eu dissesse um em um milhão, já estaria sendo otimista demais.
Por último: alguém conseguiria imaginar um confronto entre um Richard
Dawkins e um metafísico como o muçulmano René Guénon, por exemplo? Eu
também não. E, sinceramente, jamais um autor do nível deste último se
rebaixaria a tanto.
BONFANTE, Bruno. Acessado em 18/12/2017. Disponível em http://solucoestradicionais.blogspot.com.br/2011/01/questao-da-existencia-de-deus-e-o.html
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