Sunday, 21 June 2020

Remorso Póstumo, Charles Baudelaire



Quando fores dormir, ó bela tenebrosa
em fundo de uma cripta em mármore lavrada
quando tiveres só por alcova e morada
o vazio abismal de carneira chuvosa;

quando a pedra, a oprimir tua fronte medrosa
e teus flancos a arfar de exaustão encantada,
mudar teu coração numa furna calada
amarrando-te os pés na rota aventurosa,

a tumba, confidente do sonho infinito
(pois toda a vida a tumba há de entender o poeta),
pela noite imortal de que o sono é prescrito,

te dirá: "De que serve, hetaira incompleta,
não teres conhecido o que choram os mortos?"
E os vermes te roerão assim como os remorsos.

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