Thursday, 28 May 2020

Ensino, onde estais?

No Brasil, já é conhecimento usual e genérico que o ensino superior ofertado por muitas escolas e universidades não oferece ao público a qualidade e excelência esperadas para a formação de pessoas cultas e instruídas. As escolas secundárias privadas visam exageradamente ao ingresso de seus alunos em cursos tradicionais e altamente concorridos de universidades públicas e privadas. Só lhes importam os números de aprovados em vestibulares, a propaganda imensa advinda disso e a matrícula de cada vez mais alunos em seu sistema de ensino determinado pelas exigências do vestibular. Disso se pode criar a falsa idéia de que os únicos conhecimentos importantes que as crianças e os adolescentes devem adquirir são aqueles que o vestibular e a universidade queiram que eles tenham. Já as escolas secundárias públicas nem forças para isso têm. Totalmente sucateadas quanto à infraestrutura e desprovidas de recursos humanos eficientes e de qualidade, o setor educacional secundário público brasileiro não oferece à sua própria população uma educação decente e positiva, o que, a priori, deveria existir, já que o Estado brasileiro possui uma carga tributária das mais altas do mundo e, com isso, possui uma soma de recursos mais que considerável para melhorar e investir cada vez mais em setores estratégicos para o desenvolvimento pátrio, como em instituições de ensino e nos serviços que elas oferecem às pessoas.Infelizmente,devido à incapacidade e falta de seriedade em todos os campos da administração pública nacional e à transformação do vício do desvio de dinheiro público em virtude,não se consegue ver tal medida concretizada na realidade.

O aluno da escola pública secundária muitas vezes obtém o diploma de conclusão de curso sem ao menos dominar conhecimentos básicos como a correta grafia das palavras, a resolução de operações matemáticas de radiciação e potenciação e a capacidade de ler e entender um texto. Some-se a isso professores intelectual e pedagogicamente incapazes de ministrar aulas e poder-se-á entender o que é a escola pública no Brasil.No sistema educacional público,aprende-se de tudo um pouco: desde o consumo de drogas até a prática de perversões sexuais e o uso da violência física grupal contra alguns poucos que querem estudar.Tem-se acesso a tudo isso,mas não há a mínima possibilidade de contato com o conhecimento e com a instrução.Todo esse caos decorre de pelo menos dois fatores:1)A falta de valorização da formação educacional como meio libertador e emancipador ao ser humano por parte do povo brasileiro,já que este,devido ao seu baixo grau de cultura e de conhecimento,não consegue compreender a importância que tem a erudição e a Cultura Superior que herdamos da civilização européia para a formação humanístico-cultural e para o desenvolvimento contínuo do indivíduo,preferindo práticas e hábitos degradantes e decadentes advindos de africanismo e indianismos;2)A inexistência da formação de educadores sérios e capacitados para fomentar a cultura e a erudição na sociedade por parte da Universidade brasileira,que é a geradora e continuadora de toda essa decadência.

Em minha curta experiência como estudante do curso de Administração em Gestão Pública da UAB (Universidade Aberta do Brasil), tenho podido perceber a ineficiência da dita “Educação Superior” brasileira. As dificuldades já começam por tratar-se de um curso semipresencial: por disciplina, os alunos têm direito somente a duas aulas presenciais mensais. No mês seguinte, o professor tem mais duas aulas presenciais a dar, sendo uma de revisão e outra de aplicação de exame. Como não há tempo para explicar aos alunos todo o conteúdo de uma forma calma, clara e segura,aqueles têm de fazer o máximo de esforço para aprender o quanto for possível sozinhos e provar ao seu professor que este conseguiu lhes fazer entender tudo direitinho através de inúmeras postagens em fóruns temáticos,chats,troca de e-mails,entrega de trabalhos de portfólio etc.Tal forma de ensino mecanizado e destituído de uma relação mais sólida e constante do professor com o aluno no processo de ensino-aprendizagem não tem sido muito produtiva.O professor não sabe como e se certamente o aluno está absorvendo o conteúdo, e o aluno não sabe se realmente está a aprender de forma segura,pois são muitos os fóruns e trabalhos a serem entregues.Não há tempo para reflexão em ambos os lados.

Grande parte dos estudantes, advinda do setor educacional público, traz à universidade suas deficiências lá adquiridas. Vítimas de uma educação ineficiente e que muitas vezes está mais preocupada em propagar ideologias políticas falidas do que ensinar um mínimo de conteúdo decente, espelham o caos do ensino escolar em muitas postagens oficiais feitas em fóruns, onde se podem constatar desde falhas na escrita com erros atrozes de ortografia,pontuação e concordância até a explicação da realidade sócio-econômica brasileira à luz da medíocre teoria marxista- que é a única que lhes foi ministrada na escola- e a bajulação inescrupulosa do Presidente da República.Tais falhas se constituem imperdoáveis para indivíduos adultos que passaram num exame vestibular e que têm por pretensão gerir órgãos públicos do Estado brasileiro.E para piorar a situação,certos professores, que deveriam alertar-lhes sobre os erros e sobre sua correção imediata,advertem verbalmente aqueles que tentam corrigir tais deficiências(eu,por exemplo) que estão a agir de uma forma soberba,anti-ética e intolerante.Tal quadro explicita muito bem a inversão valorativa que tem ocorrido no sistema educacional: os professores,que antes tinham a responsabilidade de ensinar o conteúdo e de prevenir o erro,agora têm somente a obrigação de ensinar o quanto menos e formar ignorantes.A deficiência de ontem tornou-se um objeto de louvor de hoje.O glamour e o orgulho de possuir um diploma de nível superior ou simplesmente de conhecer alguém que o possuísse, como há alguns séculos atrás, foi substituído hoje pela vergonha em saber que , segundo uma reportagem da revista Época ( que pode ser lida em http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI108248-15228,00-DOS+BRASILEIROS+COM+ENSINO+SUPERIOR+NAO+SAO+PLENAMENTE+ALFABETIZADOS.html ) , 32% dos brasileiros com diploma de ensino superior(incluídos nessa porcentagem professores) não são totalmente alfabetizados; que muitos estudantes graduandos agridem fisicamente,jogam ácido,matam e estupram outros colegas calouros em trotes violentos pelo país etc.E o mais desesperador é saber que essas pessoas ocuparão cargos de médicos,advogados,juízes,professores,servidores públicos e ditarão os rumos que este país terá de tomar.

Praticamente todos os envolvidos no sistema educacional, quer sejam professores, coordenadores, diretores etc, têm muita consciência das falhas e erros existentes e pouca vontade de corrigi-los, o qual um e-mail a mim enviado por uma pessoa-chave da organização do curso, no qual admite que não se importa em entender e procurar solucionar os problemas, prova a incapacidade e falta de seriedade naqueles que deveriam zelar por um ensino de excelência e pelo respeito ao Saber.

Pena seja que muitos estudantes não tenham interesse em procurar melhorar não somente o ambiente educacional no qual estão inseridos, como também em corrigir suas próprias falhas e aperfeiçoar-se. Isso se explica tanto pelo fato de morarem em cidades pobres e atrasadas as quais não lhes oferecem muitas opções de educação e de emprego, como pelo fato de não possuírem interesse em verdadeiramente adquirir conhecimento, mas somente em conseguir o diploma e ter uma possível estabilidade financeira na futura profissão. Como mudar tudo isso sem antes repensar o projeto cultural e civilizacional sobre o qual o Brasil foi erigido?O que a sociedade pode esperar de bom e de eficiente de pessoas que carregarão um diploma debaixo do braço e que exigirão ser chamados de Sinhô Dotô?

Quando penso nisso, lembro-me frequentemente de uma pergunta feita por um jovem num site de relacionamentos na internet: - Não seria melhor comprar livros e estudar por conta própria em casa?Para quê serve o diploma? Para quê fazer faculdade hoje se se pode aprender muito mais estudando sozinho?Tendo em vista a terrível “educação” que nos é oferecida em escolas e universidades nos dias de hoje, sinto que a grande maioria das pessoas tenderia a lhe responder que sim.

Texto originalmente escrito por volta de maio de 2010 AD.

De Morte Philosophiæ

Como tudo que existe, a Filosofia já teve seu momento de glória. Houve Filósofos que se preocupavam realmente em respeitar o sentido etimológico da palavra, isto é, que se importavam realmente em amar a sabedoria e a busca da verdade. Uma educação filosófica verdadeira e que acima de tudo respeite a inteligência e a capacidade de compreensão dos alunos raramente se pode encontrar nos tempos atuais, quando é notório que a educação oficial em muitos aspectos dificulta ou não permite o ensino honesto e a independência racional de cada um.

Quando estive, há algum tempo atrás, no campus da Betânia da UVA, especificamente na área do curso de Filosofia, tive o imenso prazer de me reencontrar com velhos colegas e professores do curso que freqüentei não como aluno da instituição, mas como humilde interessado em aprender discutir sobre problemas filosóficos. Numa conversa com um professor do curso de Filosofia – que aqui designarei como “professor Bernstein”, mero nome escolhido arbitrariamente por mim, pois não quero revelar sua identidade-, expus-lhe minha concepção segundo a qual a atividade filosófica e seu produto, o conhecimento, são destinados exclusivamente aos ἀριστοι, os melhores-entendido aqui como aqueles que respeitam a verdade e o saber e que têm o interesse genuíno em desenvolver o intelecto e a sensibilidade, qualidades estas que são raras num mundo onde a maioria das pessoas valoriza a mentira, a futilidade e a estupidez. A Filosofia, disse-lhe, é aristocrática e elitista por natureza, não num sentido marxista e infantil de que seria um clube fechado e monopolizado por supostos “burgueses” maus, mas sim porque é reservada e cultivada por pessoas que têm interesse primordial em educar e instruir o espírito e a inteligência, pessoas estas que, em geral, são a minoria interessada e capaz de desenvolver uma autentica cultura. O professor Bernstein, não compreendendo o sentido exato das minhas palavras, encaminhou a discussão para a interpretação marxista da realidade e disse-me que a Filosofia não pode ficar restrita à chamada elite – como se esta não mais preferisse Medicina ou Engenharia Aeroespacial, – mas deve estar voltada para o proletariado.

Ao ouvir tais palavras, fiquei totalmente aterrorizado, pois sei que não só no curso de Filosofia da UVA, mas também nos cursos de Filosofia de grande parte das universidades brasileiras, essa visão errônea e politiqueira é dominante. A visão marxista expressa pela opinião do professor Bernstein procura transformar a Filosofia em uma “filocracia” operária, ou seja, num louvor ao poder dos trabalhadores de fábricas, dos operários. Tal concepção busca transformar a Filosofia em filosofismo e converter aquilo que antes era um instrumento do desenvolvimento da razão e da sensibilidade em mero meio de propaganda político-ideológica de uma classe cujo resultado será unicamente paralisar e destruir a capacidade racional do homem, rebaixando o nível da produção intelectual da nação, como diria o filósofo Olavo de Carvalho. É a destruição completa da Filosofia. Destruição esta que é ensinada por Karl Marx na tese XI de suas Teses contra Feuerbach, na qual diz: ”Os filósofos se ateram somente em interpretar o mundo, mas o que importa é transformá-lo”. Afirmando isso, Marx exige a passagem da Filosofia contemplativa, discursiva e baseada na razão, para uma “filosofia” baseada em paixões, irracionalismos, ilogismos e na ação política que possibilite a ascensão de uma classe e partido político, neste caso não só o Partido Comunista, como também demais organizações de esquerda e revolucionárias legais ou clandestinas. Ou seja, Marx não aconselha que estudemos Filosofia para resolver uma questão ou dúvida religiosa, existencial, moral, metafísica etc., que realmente nos interesse ou por simples gosto de conhecer, mas para ser um soldado sempre disposto a lutar e morrer em nome da tal revolução comunista. É a passagem do ser pensante ao não ser incapaz de pensar, instrumento barato e manipulável.

Ainda segundo o professor Bernstein, a Filosofia tem de ser levada ao proletariado. Mas o correto não seria que as próprias pessoas deixassem de se interessar por assuntos ocos e prosaicos e voltassem sua atenção para a Filosofia? A Filosofia não deve ser levada a ninguém, porque ela não é uma religião de salvação, nem os filósofos são missionários. A Filosofia tem de ser valorizada e amada por pessoas que verdadeiramente se interessam pelos problemas e discussões levantadas por ela. Jamais deve ser imposta. Ela é posse exclusiva de pessoas que fazem por merecê-la. E tais pessoas podem encontrar-se em qualquer classe social.

Para o pensamento esquerdista de alguns professores da UVA, o proletariado é uma imensa massa envolta em miséria e opressão e que, por causa disso, têm o direito e a obrigação de destruir a sociedade e usurpar o poder político, criando assim uma moral de destruição sanguinária na qual o ato mais desprezível é justificado e considerado como virtude caso atenda aos interesses da revolução (vide Catecismo do Revolucionário de Sergei Netcháev). Consequentemente, eu e você, leitor, teremos de pagar com a vida, porque, segundo eles, somos “opressores do proletariado”. Toda a moral marxista não passa de argumenta ad lazarum e pluria interrogationa.

Some-se a esse quadro negro uma maioria esmagadora de estudantes alheados do que seja Filosofia, que criaram o hábito de ler resumos, e não livros (livros de autores clássicos da Filosofia, e não de Marilenas Chauis), que mal sabem escrever – fato este assumido por um próprio professor do curso de Filosofia a mim-, que passaram no vestibular não porque acertaram grande quantidade de questões conscientemente (mérito próprio), mas por que não zeraram a prova (o que é possível graças à baixa concorrência que possibilita ao vestibulando acertar 20 questões de 60 e já ter sua vaga garantida) e que estão mais preocupados em terminar o curso o mais rápido possível com o intuito de obter o tão amado diploma e mostrá-lo ao prefeito de sua cidade para que lhe consiga uma vaga em alguma escola pública. Com base nisso, como se pode afirmar que o ensino, a aprendizagem e a produção filosófica no Brasil realmente existem e funcionam?

Penso eu que, enquanto tal pensamento reducionista e ingênuo continuar a reinar nas instituições de ensino, e estas estiverem ocupadas por estudantes mais preocupados em ler livros de auto-ajuda e os de Paulo Coelho (que, segundo ele próprio, é o “intelectual mais importante do Brasil”) do que estudar o que é importante, não haverá condição alguma de se ensinar e de se aprender realmente Filosofia, nem de formar pessoas capazes de produzir conhecimento com contribuições originais, e não simplesmente repeti-lo, como acontece hoje. A Filosofia está sendo destruída, e, se nada for feito, a única coisa que poderemos dizer será: – Requiescate in pace, philosophia.

Texto originalmente escrito por volta de abril de 2010 AD.

No Restaurante

Eu estava sentado numa mesa, comendo.
Havia outras mesas no lugar.
O lugar estava lotado.
De repente,eu levo a colher de sopa à boca
E noto um olhar.
Uma moça da mesa defronte à minha me olha
Eu paro.
Seu olhar me prende.
Minha boca aberta espera a sopa.
Ela pisca o olho como se quisesse me dizer algo.
O homem ao lado vira-se e me olha também.
Ele sorri.
Minha mãe treme e um pouco de sopa cai da colher.
Eu olho para o lado,
E a senhora de vestido negro se dirige a mim
Com olhos espantados.
O garçom para no meio de sua caminhada
E começa a gritar.
Logo percebo que todos dirigem seu olhar para mim.
E minha boca continua a esperar pela colher de sopa,
Sem saber por quê.
Medo do absurdo.
Tesão do absurdo.
Vivência do absurdo.
Morte do absurdo.

Tuesday, 28 April 2020

Obras Ilustradas de Dostoiévski - Ed. José Olympio


Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski (Moscou 1821 - 1881) foi um escritor, filósofo e jornalista do Império Russo. É considerado um dos maiores romancistas e pensadores da história, bem como um dos maiores "psicólogos" que já existiram (na acepção mais ampla do termo, como investigadores da psiquê).

Títulos lançados nesta coleção:

VOLUME I: O ETERNO MARIDO (ROMANCE, 288 PÁGINAS) TÍTULO ORIGINAL: VIECHNII MUCH. TRAD.: COSTA NEVES. 

VOLUME II: UM JOGADOR -DAS MEMÓRIAS DE UM JOVEM (ROMANCE, 294 PÁGINAS). TÍTULO ORIGINAL: IGROK. TRAD.: COSTA NEVES. 

VOLUME III: HUMILHADOS E OFENDIDOS (ROMANCE,464 PÁGINAS). TÍTULO ORIGINAL: UNICHENYE I SKORBLENYIE. TRAD.: RACHEL DE QUEIRÓZ. PREF.: :OTTO M. CARPEAUX. XILOGRAVURAS: OSVALDO GOELDI. 

VOLUME IV: RECORDAÇÕES DA CASA DOS MORTOS (ROMANCE, 414 PÁGINAS). TÍTULO ORIGINAL: ZAPISKI IZ MERTVAVO DOMA. TRAD.: DE RACHEL DE QUEIROZ. PREF.: BRITO BROCA. XILOGRAVURAS: OSVALDO GOELDI. 

VOLUME V: NIETÓTCHKA (ROMANCE, 312 PÁGINAS). ITÍTULO ORIGINAL: NIETÓTCHKA. TRAD.: COSTA NEVES. INTRODUÇÃO DE WILSON MARTINS. ILUSTRAÇÕES DE MARTHA SCHIDROWITZ, 

VOLUMES VI E VII: CRIME E CASTIGO, ACOMPANHADO DO DIÁRIO DE RASKOLNOKOV (ROMANCE, 698 PÁGINAS). TÍTULO ORIGINAL: PRESTUPLENIE I NAKAZANIE. TRAD.: ROSÁRIO FUSCO. INTRODUÇÃO: BRITO BROCA. ILUSTRAÇÕES: SANTA ROSA. 

VOLUMES VIII E IX: O IDIOTA (ROMANCE, 837 PÁGINAS) TÍTULO ORIGINAL: IDIOT. TRAD.:: JOSÉ GERALDO VIEIRA. PREF.: BRITO BROCA. ILUSTRAÇÕES: OSVALDO GOELDI. 

VOLUMES X, XI, E XII: OS DEMÔNIOS (ROMANCE, 1022 PÁGINAS) TÍTULO ORIGINAL: BIESI. TRAD.: RACHEL DE QUEIROZ. PREF.: ROBERTO ALVIM CORREIA. XILOGRAVURAS: AXEL DE LESKOSCHEK. 

VOLUMES XIII, XIV E XV: OS IRMÃO KARAMÁZO (ROMANCE, 1353 PÁGINAS). TÍTULO ORIGINAL: BRATIA KARAMÁZOVI. TRAD.: RACHEL DE QUEIROZ. INTRODUÇÃO: OTTO M. CARPEAUX. XILOGRAVURAS AXEL DE LESKOSCHEK. 

Fonte: <https://www.traca.com.br/livro/60442/obras-completas-e-ilustradas-de-f-m-dostoievski-em-15-volumes>. Acesso em 28/04/2020 


Monday, 27 April 2020

Anacreonte, Íbico e Anacreônticas

Simônides

 Foi um dos maiores poetas líricos da Grécia antiga, celebrado por sua poesia de caráter elevado e sapiencial. De sua vasta produção poética, temos apenas fragmentos. 

     De acordo com Platão, o poeta teria vivido em Atenas na mesma época em que Anacreonte, ambos por convite dos irmãos Hípias e Hiparco, tiranos herdeiros de Pisístrato. Essa relação entre governantes e poetas não era incomum. O próprio Platão viveu na corte de Dioniso de Siracusa próximo ao fim de sua vida. Aristóteles, segundo os antigos nos contam, teria sido preceptor de Alexandre, o Grande. Péricles, o estratego ateniense durante a guerra do Peloponeso, mantinha o filósofo Anaxágoras entre seus companheiros. Alcibíades, sobrinho de Péricles e estratego durante a expedição contra a Sicília, estava entre os discípulos de Sócrates. A lista continuaria por páginas e páginas.

     Simônides, ao que tudo indica, foi o inventor de um gênero poético intrinsicamente ligado à aristocracia: o epinício. Esse tipo de poema era composto e cantado, sob encomenda, para vencedores de grandes competições atléticas, como os jogos olímpicos. Dentre esses jogos, o mais distinguido era a corrida com quadriga (o carro levado por quatro cavalos). Ao contrário do que se pode esperar, o vencedor desse tipo de competição não era o piloto, mas, sim, o dono dos cavalos. A glória maior não estava em correr na pista, ainda que isso também fosse louvado, mas em ter dinheiro o bastante para bancar os dispendiosos gastos envolvidos na manutenção de cavalos. O próprio Alcibíades, para justificar que lhe dessem o posto de estratego, teria usado como argumento suas vitórias nesse tipo de competição. A poesia, nesse ponto, entra como parte da legitimação do poder, quase como uma propaganda política.