Foi um dos maiores poetas
líricos da Grécia antiga, celebrado por sua poesia de caráter elevado e
sapiencial. De sua vasta produção poética, temos apenas fragmentos.
De acordo com Platão, o poeta teria vivido em Atenas na mesma época
em que Anacreonte, ambos por convite dos irmãos Hípias e Hiparco,
tiranos herdeiros de Pisístrato. Essa relação entre governantes e poetas
não era incomum. O próprio Platão viveu na corte de Dioniso de Siracusa
próximo ao fim de sua vida. Aristóteles, segundo os antigos nos contam,
teria sido preceptor de Alexandre, o Grande. Péricles, o estratego
ateniense durante a guerra do Peloponeso, mantinha o filósofo Anaxágoras
entre seus companheiros. Alcibíades, sobrinho de Péricles e estratego
durante a expedição contra a Sicília, estava entre os discípulos de
Sócrates. A lista continuaria por páginas e páginas.
Simônides, ao que tudo indica, foi o inventor de um gênero poético
intrinsicamente ligado à aristocracia: o epinício. Esse tipo de poema
era composto e cantado, sob encomenda, para vencedores de grandes
competições atléticas, como os jogos olímpicos. Dentre esses jogos, o
mais distinguido era a corrida com quadriga (o carro levado por quatro
cavalos). Ao contrário do que se pode esperar, o vencedor desse tipo de
competição não era o piloto, mas, sim, o dono dos cavalos. A glória
maior não estava em correr na pista, ainda que isso também fosse
louvado, mas em ter dinheiro o bastante para bancar os dispendiosos
gastos envolvidos na manutenção de cavalos. O próprio Alcibíades, para
justificar que lhe dessem o posto de estratego, teria usado como
argumento suas vitórias nesse tipo de competição. A poesia, nesse ponto,
entra como parte da legitimação do poder, quase como uma propaganda
política.
Simônides Fr. 520
Nietzsche, no Nascimento da Tragédia,
dizia que os gregos antigos tinham uma cultura tão vibrante e alegre
por conhecerem também o quão terrível a existência humana podia ser.
Este poema de Simônides se enquadra nessa descrição e é um exemplo
típico da mentalidade pessimista do homem grego no período arcaico
(séculos VIII a VI a.C.). Ao contrário das ideias posteriores de deuses
bondosos e perfeitos, os homens arcaicos enxergavam o mundo como um
cenário confuso, onde a dor e a desgraça são agentes constantes que
visitam ora um ora outro, sem motivo aparente, apenas por capricho da
divindade.
Simônides Fr. 521
Sabendo que a vida era repleta de inconstância, os gregos temiam o
excesso, pois acreditavam que quem ousava ser demasiadamente feliz ou
próspero acabava, invariavelmente, atraindo a inveja dos deuses, os
únicos entes realmente felizes. É sobre isso que fala este breve poema.
Como exemplo ilustrativo, podemos pensar no caso de Creso, rei da
Lídia, que, segundo o relato de Heródoto, foi visitado por Sólon durante
suas viagens. Apresentando ao hóspede ateniense a grandeza e opulência
de seu palácio, o rei perguntou a ele, que já havia tanto viajado, quem
era o homem mais feliz que ele encontrara em suas viagens. Esperando
ouvir seu próprio nome como resposta, Creso foi surpreendido quando
Sólon elencou, sucessivamente, três homens comuns que haviam tido boas
vidas e morrido boas mortes; o primeiro deles, em batalha, defendendo a
cidade; os outros dois, atletas irmãos, após carregar a carroça de sua
mãe, uma sacerdotisa, até o templo onde se deitaram para descansar e
nunca mais acordaram. Irritado com as respostas, o rei indagou se Sólon
não o julgava feliz, sendo ele um monarca tão rico e poderoso. A isso, o
sábio respondeu que, enquanto alguém vive, no máximo pode se dizer que
ele tem sorte; só se pode julgar uma pessoa feliz ao fim de sua vida,
sabendo-se qual foi o fim que teve. De fato, Creso, alguns anos depois,
veio a entender a sabedoria de Sólon, quando foi vencido e escravizado
por Ciro, rei dos Persas.
Simônides Fr. 651
Se os poemas anteriores versavam a respeito das dificuldades
humanas, esta pequena quadra, por sua vez, elenca as quatro melhores
coisas da vida: ter saúde, ter uma bela forma física, enriquecer de modo
honesto, e ser jovem junto de seus amigos. Além de ser atribuído a
Simônides, o poema faz parte também de uma coleção de canções
simposiais. Eram cantadas após o jantar, enquanto os convivas bebiam,
alternando-se enquanto propunham brindes, declamavam poemas e cantavam
canções como esta.
Fonte: <https://lumina.ufrgs.br/course/view.php?id=18>. Acesso em 27/04/2020.
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