A poesia de Safo talvez seja o
melhor exemplo possível para o gênero lírico na Grécia – nem tanto por
ser a mais representativa de todos os subgêneros possíveis, mas porque é
aquela que mais se assimila com a nossa noção do que seja lírico.
Desde o romantismo pelo menos, compreendemos o gênero lírico como
aquele dedicado à mais pura expressão da subjetividade individual, em
oposição à objetividade narrativa do gênero épico e à tensão do gênero
dramático.
Ainda que, entre os gregos, essas não sejam distinções plenamente
cabíveis, muito da poesia de Safo se enquadra no que chamaríamos de
poesia amorosa, dedicada à expressão do desejo do eu-lírico.
Falando de modo estrito, entretanto, a poesia lírica grega é
simplesmente aquela cantada com o acompanhamento da lira. Nesse sentido,
ela se assemelha muito mais à noção ideia de canção do que propriamente
de poesia escrita.
Safo Fr. 1
Este poema, conhecido também como Hino a Afrodite,
é um dos poucos textos completos que temos dos líricos gregos – talvez o
único de Safo. Ele se constrói como uma longa prece à deusa do amor,
pedindo que Afrodite intervenha e faça com que a moça amada retribua o
afeto demonstrado pelo eu-lírico.
O texto se abre com a enunciação das características tradicionais da
deusa. Essas características são descritas por meio dos adjetivos
(epítetos) que a qualificam: imortal, de trono furta-cor, filha de Zeus,
tecelã de enganos. A evocação desses epítetos faz parte de um roteiro
ritual, no qual quem os enuncia demonstra seu respeito ao reconhecer o
poder e as zonas de influência da divindade interpelada, ao mesmo tempo
em que, ao fazê-lo, garante o atendimento de seu pedido.
Em seguida, o eu-lírico lembra as vezes em que, no passado, a deusa
já lhe fora propícia. Do ponto de vista de quem ouve e de quem profere a
prece, a rememoração se configura como uma nova instância de aparição
da deusa: descrever sua vinda, sua epifania, é como manifestá-la.
A rememoração atinge um grau de sofisticação tão grande que a deusa
ganha voz dentro do poema, perguntando e respondendo ela própria o que
precisa ser feito: conquistar o favor da moça amada, dádiva que a deusa,
dentro da lembrança reconstituída em prece, garante que dará.
Por fim, termina com o pedido para que Afrodite repita o que já fez,
do modo já cuidadosamente feito. Note-se que o cuidado de elaboração
ali se manifesta como piedade religiosa e garantia da própria
efetividade do pedido.
Safo Fr. 31
Também chamado de Phaínetaí moi,
por suas palavras iniciais, este poema foi extensivamente traduzido por
uma variedade de importantes poetas, desde a própria antiguidade, por
Catulo, até mais recentemente, por Byron, William Carlos Williams,
Almeida Garrett e muitos mais.
O texto descreve uma espécie de triângulo amoroso: há uma moça amada
e um homem que obtém seu favor, ao passo que o eu-lírico se apresenta
como uma terceira voz, excluída do terreno amoroso à exceção das
sensações vertiginosas e sinestésicas que sente ao ver e ouvir o objeto
de seu afeto.
Ainda que haja uma sensação de término ao último verso apresentado, o
manuscrito, de onde o poema foi recuperado, contém indícios de que ele
continuaria com as palavras: “mas tudo é ousável e sofrível, visto que
mesmo a um pobre...”.
Um paralelo curioso pode ser criado entre o texto deste poema e
aquele da canção “Noite de verão”, de Chico Buarque e Edu Lobo. Nela, o
próprio eu-lírico assume ambos os papeis, o do amante quase divino por
receber o favor da mulher amada (ainda que por apenas uma noite) e o de
homem resignado com sua condição de espectador de um caso de amor que se
encontra além de seu alcance.
Safo Fr. 102
Este fragmento, provavelmente de um poema maior, contém apenas dois
versos nos quais o eu-lírico se dirige a alguém, que chama de “doce
mãe”, dizendo que não consegue se concentrar em seu trabalho de tecer o
pano, por estar dominada, graças à “esbelta Afrodite”, pelo desejo por
uma moça ou um moço (a palavra grega παῖς é de dois gêneros).
Ainda que chame seu interlocutor de mãe, é possível que seu
interlocutor não fosse sua mãe biológica. Em Grego, os termos “pai” e
“mãe” eram usados também como uma espécie de pronome de tratamento para
pessoas a quem se queria distinguir. Uma hipótese plausível,
considerando o paralelo com outros poemas de Safo, é a de que a voz do
poema fosse de uma garota que se dirige à própria poetisa, a quem
chamaria de mãe por seu papel como preceptora e educadora de jovens
garotas, preparando-as para o casamento.
Safo Fr. 168B
Este pequeno poema descreve uma cena noturna na qual o eu-lírico se
apresenta completamente sozinho: não apenas lhe falta companhia humana,
mas encontra-se fora de cena também todo o mundo natural, representado
pela lua e pelas estrelas, contribuindo para a sensação de isolamento
intimista.
É curioso notar que, em Grego, δύω, o verbo que descreve o ocaso dos
astros, significa também “mergulhar”. A noção implícita é a de que o
sol, os planetas e as estrelas mergulham no mar ao se pôr.
Fonte: <https://lumina.ufrgs.br/course/view.php?id=18 >. Acesso em 27/04/2020.
No comments:
Post a Comment