Saturday, 29 August 2020

A Órfã na Costura




Ela lhe ensinou a levantar suas mãos puras

e inocentes para o céu, a dirigir seus primeiros

olhares a seu Criador.

                     Flechier



Minha mãe era bonita,

Era toda a minha dita,

Era todo o meu amor.

Seu cabelo era tão louro,

Que nem uma fita de ouro

Tinha tamanho esplendor.



Suas madeixas lúcidas

Lhe caíam tão compridas,

Que vinham-lhe os pés beijar.

Quando ouvia as minhas queixas,

Em suas áureas madeixas

Ela vinha me embrulhar.



Também quando toda fria

A minha alma estremecia,

Quando ausente estava o sol,

Os seus cabelos compridos,

Como fios aquecidos,

Serviam-me de lençol.



Minha mãe era bonita,

Era toda a minha dita,

Era todo o meu amor.

Seus olhos eram suaves,

Como o gorjeio das aves

Sobre a choça do pastor.



Minha mãe era mui bela,

— Eu me lembro tanto dela,

De tudo quanto era seu!

Tenho em meu peito guardadas

Suas palavras sagradas

Co'os risos que ela me deu.



Os meus passos vacilantes

Foram por largos instantes,

Ensinados pêlos seus.

Os meus lábios mudos, quedos

Abertos pêlos seus dedos,

Pronunciaram-me: — Deus!



Mais tarde — quando acordava

Quando a aurora despontava,

Erguia-me sua mão.

Falando pela voz dela,

Eu repetia singela

Uma formosa oração.



Minha mãe era mui bela,

— Eu me lembro tanto dela,

De tudo quanto era seu l

Minha mãe era bonita,

Era toda a minha dita,

Era tudo e tudo meu.



Este pontos que eu imprimo,

Estas quadrinhas que eu rimo,

Foi ela que me ensinou.

As vozes que eu pronuncio,

Os cantos que eu balbucio,

Foi ela quem mos formou.



Minha mãe'. — diz-me esta vida,

Diz-me também esta lida,

Este retroz, esta lã.

Minha mãe! — diz-me este canto,

Minha mãel — diz-me este pranto,

— Tudo me diz: — minha mãe! —



Minha mãe era mui bela,

— Eu me lembro tanto dela,

De tudo quanto era seu!

Minha mãe era bonita,

Era toda a minha dita,

Era tudo e tudo meu.



Junqueira Freire

Sunday, 9 August 2020

Obras-Primas 1979

 1-Dom Quixote- Cervantes
2-Histórias Extraordinárias- Poe
3-As Ilusões Perdidas- Balzac
4-Memórias Póstumas De Braz Cubas/ Dom Casmurro- Machado de Assis
5-O Falecido Mattia Pascal/ Seis Personagens à Procura de um Autor- Pirandello
6-Odisséia- Homero
7-As Aventuras do Sr. Pickwick- Dickens
8-Romeu e Julieta/Macbeth/Hamlet, Príncipe da Dinamarca/Otelo, O Mouro de Veneza- Shakespeare
9-As Alegres Comadres de Windsor/ Medida Por Medida/ O Sonho de Uma Noite de Verão/ O Mercador de Veneza/ A Megera Domada- Willian Shakespeare
10-Madame Bovary- Flaubert
11-Decamerão-Boccaccio
12-O Vermelho E O Negro- Stendhal
13-Germinal-Émile Zola
14-O Processo- Frank Kafka
15- Crime e Castigo Volume I- Dostoiévski
16- Crime e Castigo Volume II- Dostoiévski
17-A Idade da Razão- Jean Paul Sartre
18- As Três Irmãs/ Contos- Tchekhov
19-O Primo Basílio- Eça de Queirós
20-O Morro dos Ventos Uivantes- Emily Bronte
21-Estado de Sítio/ O Estrangeiro- Albert Camus
22-Os Lusíada- Luís de Camões
23-As Vinhas da Ira Volume I-John Steinbeck
24-As Vinhas da Ira Volume II-John Steinbeck
25-Os Trabalhadores do Mar- Victor Hugo
26-O Leopardo- Lampedusa
27- Almas Mortas- Nikolai Gógol
28- No Caminho de Swann- Marcel Proust
29-A Divina Comédia- Dante Alighieri
30- Tônio Kroeger/ A Morte em Veneza-Thomas Mann
31-Ana Karênina Volume I- Leon Tolstói
32- Ana Karênina Volume II- Leon Tolstói
33-Viagens de Gulliver- Jonathan Swift
34-Os Sertões- Euclides da Cunha
35-Pequenos Burgueses/ Mãe- Máximo Gorki
36-Contos- Voltaire
37- Mulheres Apaixonadas- D.H. Lawrence
38-O Tartufo/ Escola de Mulheres/ O Burguês Fidalgo- Molière
39-1919- John dos Passos
40-Admirável Mundo Novo- Aldous Huxley
41- Um bonde chamado desejo/ A morte do caixeiro viajante- Tennesse Willians
42-Prometeu Acorrentado- Ésquilo/ Édipo Rei- Sófocles/ Medéia- Eurípides
43-Babbitt- Sinclair Lewis
44-O Sol também Se Levanta- Ernest Hemingway
45-Longa Jornada Noite Adentro- Eugene O'Neill
46-A Outra Volta do Parafuso/Lady Barberina-Henry James
47-Moby Dick Volume I- Herman Melville
48-Moby Dick VolumeII- Herman Melville
49-A Religiosa-Dennis Diderol
50-As Relações Perigosas-Choderlos de Laclos
51-Lord Jim- Joseph Conrad
52-Moll Flanders- Daniel Defoe
53- O Retrato do Dorian Gray- Oscar Wilde
54-Ulisses- James Joyce
55-Santuário- William Faulkner

Friday, 26 June 2020

Ἰλιάς

𝕬cabei de ler Ilíada, do poeta grego Homero. Que livro! Acho que o melhor livro que li na minha vida até o momento!

Deu-me até sentir saudade dos personagens do poema, personagens com as quais tenho convivido diariamente deste final de abril. Devo admitir que tentei ler a narrativa de uma forma neutra com o intuito de entender os fatos e personagens de forma crua, sem tomar partido. Entretanto, acabei ficando fascinado pelos personagens Troianos, principalmente o rei Príamos, Hector e Andromáche.

O relato das batalhas, dos personagens e o encadeamento das ações é fascinante. Comoveu-me profundamente o adeus de Hector a Andromáche e a seu filho Astyanax; os discursos pesados de dor da esposa de Hector e a cena final no Canto XXIV. São passagens poderosas e marcantes da narrativa das quais nunca me esquecerei. A personagem Andromáche é plena em intensidade dramática e poética!

Já do lado dos gregos, comecei com um certo pendor por eles, mas já alguns Cantos depois minha afeição diminuiu. Achilleus, personagem cuja cólera o poeta canta, não é nada do que pensei: é um guerreiro presunçoso, cruel, desumano, bestial, selvagem, ególatra, escravizador de mulheres, egoísta, sedento por sangue. Páris pelo menos serviu para alguma coisa e lhe acertou posteriormente uma flecha no calcanhar, com ajuda de Apollon, e vingou seu irmão.


Wednesday, 24 June 2020

Excertos da obra De Officiis(Tomo I)

"Mantemos a honestidade e o decoro na vida quando sabemos impor certa moderação e ordem em tudo que a compõe." Cap. IV

"Devemos nos precaver de dois vícios. Primeiro, o de tomar por já sabido o desconhecido.(...) O outro vício consiste em dedicar excessivo empenho, pugnando por coisas obscuras e dificultosas, quando desnecessárias. Uma vez descartados tais vícios, então direcionar o esforço e o cuidado em conhecer coisas honestas e dignas." Cap. V

"O primeiro dever da justiça edita não prejudicar a ninguém, salvante o caso de provocação injuriosa. Depois manda usar das coisas coletivas como comuns e as particulares como próprias." Cap. VI

"Investe contra o direito da sociedade humana quem ambiciona possuir em demasia." Cap. VI

"Como Platão escreveu, de modo egrégio, não nascemos apenas para nós, mas de nossa vida a pátria reivindica uma parte, sendo que a outra parte cabe aos nossos amigos e, como gostam de falar os estoicos, tudo quanto se produz, neste mundo, destina-se ao uso dos seres humanos, já que os homens, por sua vez, foram gerados em razão de seus semelhantes de modo a poderem uns auxiliar os outros." Cap. VI

"Há duas espécies de injustiça. A primeira consiste na prática do mal. A segunda, quando, embora havendo condições, não é revidada a ofensa recebida.(...) Quem não se opõe nem rechassa a injúria, desde que a seu alcance, descamba para a mesma culpa de quem desampara pais, amigos e pátria." Cap. VII  

"Quem, de modo injusto, acomete contra seu semelhante, incitado por ira ou por qualquer outra perturbação, está a desferir golpes contra seu parceiro de convívio social." Cap. VII

"É então necessário remontar àqueles dois fundamentos da justiça, acima mencionados: primeiro, não causar prejuízo a ninguém; depois servir ao bem comum." Cap. X 

"Não devem ser cumpridas aquelas promessas que possam ser nocivas para aquele a quem tenhas prometido." Cap. X

"Não há quem não veja que promessas formuladas sob intimidação ou falsas pretensões não devem ser cumpridas." Cap. X

"Penso ser suficiente que o ofensor arrependa-se do seu ato injusto e não reincida." Cap. X

"Justifica-se fazer guerra pela razão acima referida, isto é, para afastar agressões e estabelecer a paz." Cap. XI

"De todas as injustiças, a mais repulsiva é aquela das falsários que quanto mais enganam tanto mais ocultam para simular e parecer gente de bem." Cap. XIII

"Que a liberalidade não seja maior do que as posses e que tenha proporção com o mérito de cada um." Cap. XIV

"Que a generosidade não exceda as posses." Cap. XIV

"Dá na vista ainda que muitos, generosos menos por temperamento e mais porque aliciados pela vaidade de aparecerem beneficentes, fazem coisas que claramente procedem não da vontade correta e sim da pura ostentação. Ora, tal simulação reflete mais a face do vaidoso do que a do liberal ou honesto.

A terceira precaução é que, no ato de beneficiar, exista critério de mérito. Então devem ser separados os costumes do beneficiário, seus sentimentos em relação ao benfeitor a par de uma vida em comunidade e na sociedade mais ampla como ainda os serviços prestados a todos nós." Cap. XIV

"Nada que é carente de justiça pode ser honesto." Cap. XX

"Os indivíduos fortes e magnânimos devem ser bons, simples, amigos da verdade e nada enganadores." Cap. XX

"Nada revela o tamanho da mesquinhez como o apego às riquezas. De outro lado, é sinal evidente de dignidade e de honradez desprezar as riquezas, quando não as possuímos, mas, possuindo-as, então saber reparti-las, com liberalidade, para fins beneficentes.

Seja, outrossim, evitada a cupidez da glória, como, aliás, acima já advertimos. Isso tolhe a liberdade, e os indivíduos magnânimos devem preservá-la a qualquer preço e custo." Cap. XXI

"O corpo deve ser exercitado e disposto de tal modo que se submeta aos ditames da razão e assim desempenhe suas atividades e suporte as fadigas do trabalho." Cap. XXIII

"Verdadeiramente forte e constante é quem não se perturba em meio às asperezas da vida nem se abate ante o fracasso (...) mas, mantendo o autodomínio e a deliberação, jamais se afaste da razão." Cap. XXIII

"É forçoso encarar a luta e preferir a morte à escravidão e à desonra." Cap. XXIII

"Em caso de fuga ante o perigo, jamais poderíamos agir de maneira que configurasse covardia ou pulsilaminidade. De outro lado,  expor-se, sem cuidado, ao perigo, nada mais imbecil. No enfrentamento de perigo seja imitada a prática dos médicos. Eles aplicam medicamentos brandos em enfermidades leves, mas, quando são doenças graves, são coagidos a recorrerem a tratamentos perigosos e incertos." Cap. XXIV

"Eis que almejar tormenta feroz quando reina tranquilidade é mesmo desatino." Cap. XXIV

"Há aqueles que, com receio da inveja, não ousam manifestar-se, embora portadores de contribuição excelente." Cap. XXIV

"É de absoluta necessidade que as pessoas que vão gerir a o governo da República atenham-se a estes dois preceitos de Platão: primeiro, que o bem dos cidadãos deve ser tutelado de modo que tudo quanto for feito seja direcionado para tal finalidade mesmo com sacrifício de vantagens próprias. Segundo, zelar pelo inteiro corpo do Estado e não só por uma parte com preterição dos demais. Por isso, a tutela da administração deve ser para a utilidade dos governados e não do governante. Quem atende uma parte dos cidadãos, deixando a outra sem assistência, injeta no corpo social algo de muito pernicioso, fomentando discórdia e divisão." Cap. XXV

"Quem for cidadão responsável, forte e digno de estar à frente do governo, deve então odiar e afugentar tudo isso, consagrando-se por inteiro ao bem público sem ao encalço de riqueza e de poder, mas disso tudo far-se-á guardião a fim de promover o bem comum." Cap. XXV

"De todo detestável qualquer contenda por ambição de honrarias." Cap. XXV

"Não merece ser ouvido quem apregoa que o homem forte e magnânimo deve votar ódio ao inimigo, já que nada mais louvável e revelador de um caráter de portentosa nobreza do que a mansidão unida  à clemência." Cap. XXV

Sunday, 21 June 2020

Remorso Póstumo, Charles Baudelaire



Quando fores dormir, ó bela tenebrosa
em fundo de uma cripta em mármore lavrada
quando tiveres só por alcova e morada
o vazio abismal de carneira chuvosa;

quando a pedra, a oprimir tua fronte medrosa
e teus flancos a arfar de exaustão encantada,
mudar teu coração numa furna calada
amarrando-te os pés na rota aventurosa,

a tumba, confidente do sonho infinito
(pois toda a vida a tumba há de entender o poeta),
pela noite imortal de que o sono é prescrito,

te dirá: "De que serve, hetaira incompleta,
não teres conhecido o que choram os mortos?"
E os vermes te roerão assim como os remorsos.